Monday, December 21, 2009

PAUSA PARA PUBLICIDADE










Sabia que não devia abusar da cafeína mas uma vez por outra... Rasgou o invólucro do açúcar por metade do braço da mulher que o fitou com um meio sorriso analógico como se estivesse a posar para uma máquina fotográfica digital. Desviou os olhos dos dela e concentrou a sua atenção em mexer metodicamente o granulado doce no fundo da chávena - quase cheia com um líquido cuja cor pouco tinha a ver com a do café* - no sentido dos ponteiros do relógio, passavam precisamente vinte minutos das sete. Tão abstraido estava nesta operação, que o toque do telefone o sobressaltou. Atendeu contrariado e resmungou à pergunta da voz feminina «Não, o George Clooney não está nem nunca esteve neste número, mas asseguro-lhe que se anda à procura de uma prenda de natal com qualidade, está bem servida comigo.» Ia jurar que a mulher-açucarada lhe fez um sorriso de assentimento e isso reconfortou-o porque uma coisa eram as certezas que ele tinha sobre si mesmo, a outra, meros e mesquinhos retratos, definidos por gente roída de inveja.
* Desta vez, tinha sido pouco feliz com a selecção de cor da cartolina que recortou para representar a aromática infusão no interior da chávena.
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É certo e sabido, que chegada esta altura do ano, as personagens da história de perseguições e seguimentos argumentam hábitos consumistas difíceis de entender nos tempos que correm, refeições com familiares com quem têm relações cortadas durante o resto do ano e o envolvimento numa salada de tradições religiosas e pagãs para se baldarem à prestação do episódio do jantar a quatro. O autor nada pode fazer contra tal posição não vá alguma central sindical cair-lhe em cima, ser perseguido por um chefe de família furioso ou excomungado por um bispo mais radical. Por outro lado, fica com tempo para descalçar a bota dos seguimentos e perseguições e para desejar as melhores (ou possíveis) festas, a quem é das festas e aos que são mais dos beijos e abraços.

2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Sunday, December 13, 2009

HÁ MOURO NA COSTA (11)








Alípio foi o último personagem desta história a receber o e-mail-convite de Jesualdo. Não sabendo fazer outra coisa na vida a não ser perseguir pessoas, admitia - democraticamente - que também o perseguissem a ele. Nas acções de formação que frequentou, aprendeu que nunca seria um bom profissional se fosse assaltado mentalmente, uma única vez que fosse, pela "mania da perseguição". Perseguir pessoas era um trabalho, não um sintoma patológico. Daí que, encarava com a maior naturalidade a perseguição anual que o fisco lhe movia, a perseguição mensal do proprietário da casa onde vivia, a perseguição quotidiana da sua colega de profissão Dolores (uma valenciana perseguidora incansável, cheia de carnes e de vontade de conviver mais de perto com Alípio), enfim, a um cortejo cujo séquito de perseguidores (pela sua extensão) não vale a pena continuar a referir neste texto, se juntava agora Jesualdo - nome que nada lhe dizia - mas que tinha o bom-gosto de o convidar para jantar. Tal como precisava de conhecer os hábitos de quem perseguia, do mesmo modo procurava perceber os usos e costumes deste seu perseguidor. Sem dúvida que, também por isso, aceitaria o convite. Mas antes, havia que finalizar a perseguição por um dia, que lhe tinha sido encomendada por um sexagenário descontrolado , a uma mulher maneta, que supostamente teria deitado as mãos ao pescoço (e a outras partes do corpo) de uma jovem que se encontrava regular e amigavelmente com o seu cliente. Depois, deixaria para trás o seu disfarce de vendedor da revista Cais. Foi nesses preparos, que o autor destas linhas o encontrou na rua do Sol ao Rato.

Prossegue continuando.

2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Saturday, December 05, 2009

O TEMPO: SEM SOMBRA DE SOL (10)







Porque os tempos mandam apertar o cinto, Lídia aproveita-os o melhor possível: nos fins-de-semana, feriados, pontes, auto-estradas e viadutos, despe a pele profissional de técnica contabilística camarária a recibos verdes e ei-la a fazer mais uns euros, na honrada laboração de proporcionar uma refeição económica ao passeante mais desabonado, por via de apetitosos cachorros-quentes que ela prepara com esmero e cujo sucesso reside na cebola de Flandres. Aos turistas da estranja, vende hot-dogs e a reconversão nem lhe dá grande trabalho: basta trocar as posições entre o aquecimento e os cachorros e a coisa está pronta a sair. Hoje, sábado fartamente molhado, o autor foi encontrá-la num dos pisos da gare do Oriente lavada em lágrimas. Explicou que um cliente japonês tinha acabado de lhe fazer um escândalo, porque segundo ele, após ingerir um dos seus hot-dogs, foi hospitalizado com cortes profundos nos intestinos. Um ano depois e já restabelecido, confrontou Lídia «Cliente japonês não tel memólia culta: comel cacholo com folha de Flandles!» Mas a boa notícia é que recebeu um convite para jantar, do seu vereador Jesualdo e que a frase, aparentemente dúbia, de "ou comem todos ou... " não lhe suscita qualquer dúvida: ele vai recompensá-la pelo trabalho que ela teve em perseguir Eunice. Sem quaisquer resultados práticos, é verdade, mas para uma primeira vez, que mais se poderia exigir senão a perseguição pela perseguição? A competência chega com a prática e quem sabe se um destes dias não teremos Lídia a perseguir a sua sombra? «Aprende comigo.» orienta-a Jesualdo «Decerto não imaginas que comecei a despachar, com a naturalidade com que despacho hoje... Vê bem que já nem preciso de assinar o que leio!» Também ela tinha de se despachar para responder ao convite expresso no e-mail: afirmativamente, claro.
A seguir: a continuação.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Friday, November 27, 2009

DOMINAÇÃO DE SENTIMENTOS (9)







Deixou as crianças no infantário e fez a pé a distância que a separava da paragem do autocarro para o hospital de Santa Maria onde ia visitar Umbelina, uma amiga de longa data, vítima de atropelamento e fuga na avenida 5 de Outubro. Do atropelamento resultaram múltiplas fracturas na amiga e, ao que se sabe, da fuga o fugitivo saiu disparado e ileso. Mas os seus pensamentos, por esta altura, não estavam centrados na azarada Umbelina. Por mais voltas que desse à cabeça, Eunice não compreendia porque razão Jesualdo lhe enviara um e-mail convidando-a para um jantar, onde o assunto se resumia a um misterioso "ou comem todos ou... ". Sendo certo que, quando o marido chegava tarde da noite a casa, já Eunice dormia profundamente, e enquanto ele ainda dormia a sono solto pela manhã, ia ela a caminho do infantário com as crianças, isso seria motivo suficiente para ele não optar por um telefonema, num momento em que ambos estivessem acordados? E o que quereria dizer "ou comem todos ou ... "? Seria uma ameaça velada de significado oculto ou um modo claro de fazer perder o apetite ao mais faminto dos comensais ? E afinal era um jantar a dois ou Jesualdo convidara também os amigos com quem se fazia acompanhar, aos fins-de-semana da época venatória, divertindo-se a darem cabo da vida aos tordos? Os sentimentos contraditórios eram de tal ordem (continuava a ter imensas desconfianças sobre a fidelidade de Jesualdo, mas certezas, apenas aquelas que a intuição lhe permitia), que o mais assisado seria aceitar o convite e tentar perceber onde começava o menu e paravam as modas. Acomodada no interior do transporte colectivo, enviou uma mensagem ao autor desta história «Se eu não aceitasse o convite, queria ver como é que descalçavas esta bota.»

Continua. Sem esgotamentos académicos ou sofrimentos pandémicos.

2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Thursday, November 19, 2009

O INOCENTE DO COSTUME (8)










Avaliou melhor a situação e decidiu-se pelo "Manuel dos Grelos". Igual a tantas outras casas de restauração nas ruas secundárias da baixa pombalina e de clientela mais ou menos volante, dificilmente o reconheceriam das arruadas recentes pela capital uma vez que, desde essa altura, não tinha desfeito a barba e deixara crescer o cabelo que agora lhe tapava as orelhas. E aproveitaria para aparar as sobrancelhas que tanto gostava de arquear num tique de sobranceria, no salão de cabeleireiro unisexo, contíguo à casa de pasto. O "Atira-te ao Rio... " ficaria para mais tarde, talvez quando aqueles edifícios desactivados, à beira-d´água, e em permanente risco de desabar sobre a cabeça dos passeantes, acabassem por ruir por iniciativa(?!) própria. Ligou para o número que vinha na imagem e respondeu-lhe uma voz feminina no idioma de Lord Byron com indisfarçável sotaque beirão. A campanha do executivo de pôr os portugueses a falar inglês pelos cotovelos, estava a resultar, raciocinou, solicitando de imediato «Mesa para quatro, dia tal, às tantas horas. Sim, eu sei que é o meu secretário que costuma fazer as marcações, mas hoje deu-me uma de cidadão comum.» Despachou em grande velocidade uma associação de amigos do hóquei sobre o gelo, de Marvila, e uma companhia de circo nipónica, com elefantes trombudos e hienas sorridentes, que pretendia assentar arraiais no Intendente, na quadra do Natal. Esfregou as mãos (gesto que preludiava o início de aturado trabalho intelectual ou a impaciência sôfrega de atacar uma travessa de bacalhau com todos) e atirou-se à tarefa de enviar convites aos outros personagens desta história. Sorriu inigmaticamente e, sem se preocupar se o gabinete estava ou não, minado de escutas, disse para si, em alta-voz «Então a perseguirem-me?! Quando perceberem que um dia destes será o dia do cacador... » enervando-se logo a seguir por ter dado conta, tardiamente, que não tinha cedilhado o c de caça. Recompôs-se e consultou a lista de e-mails que o autor da história lhe tinha cedido previamente. O primeiro a ser enviado teria como destinatária Eunice, sua desconfiada esposa.
Continuará, até que os dedos me doam.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, November 11, 2009

À MESA TUDO SE RESOLVE ? (7)










Com tanta perseguição, pouco tempo lhe sobrava para fazer aquilo que mais gostava: dar passeio às pernas e aos olhos pela beira-rio. Hoje, mandou às urtigas, os cuidados de olhar de soslaio para quem lhe ia na peugada e deu consigo a ver as vistas. A Praça do Comércio que continuava a não fazer jus ao nome, não comercializando absolutamente nada e se mantinha firme no primeiro lugar do ranking das "obras dificilmente concluidas em tempo útil", arrebatado recentemente às de Santa Ingrácia, dava ideia de um mega set da sétima arte, dirigido por nomes oscarizados na arte das derrapagens em grande velocidade. Surpreendeu-se uma vez mais, com a largura que rio agora apresentava. Num autêntico golpe de mágica, Cacilhas estava a um palmo de distância da margem onde se encontrava. Aquela tinha sido a solução financeira mais económica encontrada pelo executivo, sendo que assim, as pontes de grande envergadura deixavam de fazer sentido, uma vez que a travessia a nado seria uma opção de grande alcance social e desportivo. É verdade que foi o cabo dos trabalhos para retirar água ao leito do Tejo, mas com a ajuda da população sénior do distrito de Setúbal - com a sua inestimável experiência de vida - e das crianças das escolas da Grande Lisboa - mais os seus baldinhos de praia - a coisa fez-se, pela primeira vez e no âmbito das obras públicas, no prazo pré-estabelecido. Em Alcântara, a canção que pairava nos ares daquele bairro ( "A carga pronta metida nos contentores/adeus aos meus amores que me vou/ p´ra outro mundo... ") trouxe-o ao mundo que o atazanava nos últimos dias. E teve uma ideia: porque não organizar um almoço no "Atira-te ao Rio e Diz que te Encharcas" com seguidores e perseguidos desta história e onde tudo se deslindasse? Jesualdo* (Bibi para os familiares mais chegados) já tinha na cabeça o convite-chave para o repasto: "ou comem todos ou... ".

*Por imperdoável lapso, na imagem não se distingue claramente a figura de Jesualdo. Ele está totalmente encoberto pelo homem de camisa azul e calças negras (à direita da foto) que se encaminha na direcção do Mosteiro dos Jerónimos.
Continua no próximo texto.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.

Wednesday, November 04, 2009

EM DEFESA DA HONRA (6)









Um destes dias, em conversa de circunstância com um vizinho, Jesualdo ficou a saber que o seu nome era referenciado na blogosfera. Após ter matado o bicho da curiosidade - não fosse ele homem de convicções fortes - também se teria matado, porque o que leu àcerca de si, apenas se poderia classificar de uma miserável infâmia. Revoltado, reuniu no Martinho das Arcadas, familiares, amigos e conhecidos e relatou o que tinha lido. Foi sereno no início, emocionou-se no meio e irritou-se depois. Quando ao concluir - na torrente de argumentos, afirmando-se marido exemplar - interrogou «vocês estão a seguir-me?» e a plateia em uníssono aquiesceu, abriu os braços desalentado. Anónimo entre a assistência, o autor destas linhas também não achou graça nenhuma ao coro afirmativo, porque, seguramente, calculou cerca de cinquenta pessoas a seguirem Jesualdo. O que quereria dizer que esta história se arrastaria até finais de dois mil e dez... Quem a imagem não mostra (por absoluta falta de espaço) são as faces ocultas de Eunice*, Lídia** e Alípio** (entre outras faces ocultas de outras histórias não ficcionadas), que se encontram, respectivamente, nas décima, décima primeira e décima segunda arcadas, a seguirem-se entre si.
*Eunice, esposa de Jesualdo (para quem começou agora a ler a história) foi naturalmente convidada mas "escusou-se" argumentando cansaço pela viagem a Freixo-de-Espada-Curva, onde esteve na noite de Halloween a distribuir chicletes e mordeduras. Está feita uma seguidora nata.** Lídia e Alípio são mais para os queques e bolos-de-arroz .

Continuamos, não é verdade?

2009. Foto e texto de Alberto Oliveira.