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Sabia que não devia abusar da cafeína mas uma vez por outra... Rasgou o invólucro do açúcar por metade do braço da mulher que o fitou com um meio sorriso analógico como se estivesse a posar para uma máquina fotográfica digital. Desviou os olhos dos dela e concentrou a sua atenção em mexer metodicamente o granulado doce no fundo da chávena - quase cheia com um líquido cuja cor pouco tinha a ver com a do café* - no sentido dos ponteiros do relógio, passavam precisamente vinte minutos das sete. Tão abstraido estava nesta operação, que o toque do telefone o sobressaltou. Atendeu contrariado e resmungou à pergunta da voz feminina «Não, o George Clooney não está nem nunca esteve neste número, mas asseguro-lhe que se anda à procura de uma prenda de natal com qualidade, está bem servida comigo.» Ia jurar que a mulher-açucarada lhe fez um sorriso de assentimento e isso reconfortou-o porque uma coisa eram as certezas que ele tinha sobre si mesmo, a outra, meros e mesquinhos retratos, definidos por gente roída de inveja.
* Desta vez, tinha sido pouco feliz com a selecção de cor da cartolina que recortou para representar a aromática infusão no interior da chávena.
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É certo e sabido, que chegada esta altura do ano, as personagens da história de perseguições e seguimentos argumentam hábitos consumistas difíceis de entender nos tempos que correm, refeições com familiares com quem têm relações cortadas durante o resto do ano e o envolvimento numa salada de tradições religiosas e pagãs para se baldarem à prestação do episódio do jantar a quatro. O autor nada pode fazer contra tal posição não vá alguma central sindical cair-lhe em cima, ser perseguido por um chefe de família furioso ou excomungado por um bispo mais radical. Por outro lado, fica com tempo para descalçar a bota dos seguimentos e perseguições e para desejar as melhores (ou possíveis) festas, a quem é das festas e aos que são mais dos beijos e abraços.
2009. Texto e foto de Alberto Oliveira.






